Por Lucas Cerchiari
A eleição chilena recente funcionou como aquela peça de quebra-cabeça que, ao ser colocada, revela um desenho maior na mesa. O Chile vinha experimentando um ciclo de protestos (estallido social), debates constitucionais fracassados e ondas de instabilidade econômica e social. Com esse contexto, a vitória de Jose Antonio Kast, representante da direita, surge como tentativa de reorganizar o país.
Mas o fenômeno não vive sozinho. Pela América do Sul inteira, a bússola ideológica parece vibrar, reagindo a frustrações econômicas, desgastes institucionais e novas ansiedades sociais, e nesse universo, o Brasil opera como um centro gravitacional. Suas escolhas políticas irradiam efeitos, oferecem contraste e, de certo modo, mudam o formato do cenário político sul-americano. Nosso país claramente influencia nossos vizinhos, mas será que pode ser influenciado?
Desde 2024, a direita foi a resposta que três vizinhos do Brasil escolheram para seus problemas. A Argentina que já estava esgotada por décadas de estagnação e pelo descrédito no establishment peronista, buscou na direita da ruptura um novo caminho para a prosperidade. A direita surge aqui como o sensor de um descontentamento profundo, oferecendo propostas de ruptura e um discurso contra o sistema, na tentativa de tirar o país de décadas de estagnação. Uma espécie de implosão planejada.
Já a Bolívia, onde a herança de programas sociais é forte, mudou os rumos depois de 20 anos de governos de esquerda e elegeu Rodrigo Paz, representante de uma direita da conciliação. Seu projeto de “capitalismo para todos” combina incentivos ao setor privado com manutenção de programas sociais, formalizando a economia informal sem abandonar as redes de proteção. Essa direita não quer derrotar ideologicamente a esquerda, é pragmática, conciliadora e voltada para capturar o centro político que a esquerda deixou vago.
No Chile, com a recente vitória de Kast, a direita da ordem surge com a missão de costurar um país tensionado por crises sociais profundas. A pauta da ordem adquire um caráter quase terapêutico: restaurar confiança, reposicionar instituições e tentar conter a erosão da coesão nacional. É um projeto que nasce em ambiente polarizado, o que o torna mais nervoso e mais simbólico.
Apesar das diferenças, há uma constelação de fatores que atravessa Chile e Brasil de maneira quase paralela: segurança pública, pois em ambos os países, a sensação de vulnerabilidade virou combustível político, com o aumento do crime organizado, crise migratória e violência; o custo de vida, inflação, preços de alimentos e perda de poder de compra empurram o eleitorado para alternativas que prometem eficiência rápida. É o tipo de preocupação que não respeita fronteiras nem ideologias; e por fim, a descrença institucional, a fadiga com partidos tradicionais, escândalos e promessas não cumpridas cria terreno fértil para candidatos que se vendem como reparadores de danos. Esses fatores não são apenas paralelos. Eles funcionam como uma ponte, tornando o eleitorado brasileiro receptivo a discursos e soluções que já se provaram vitoriosos nos países vizinhos.
Dentro desse mosaico que muda de cor conforme a luz, o Brasil se aproxima do seu próprio marco em 2026. O que a reconfiguração do tabuleiro oferece ao nosso país não é uma única onda, mas um cardápio de futuros possíveis para a direita. Irá a oposição brasileira se inspirar no modelo de ruptura da Argentina, na busca por uma ordem restauradora como no Chile, ou tentará um caminho de conciliação pragmática similar ao boliviano? A resposta a essa pergunta pode definir a disputa da próxima eleição.
A questão para 2026, portanto, não é apenas se o placar entre esquerda e direita na América do Sul irá desempatar (atualmente há 6 governos de esquerda e 6 de direita), mas sim qual tipo de direita emergirá nas eleições no Brasil, influenciado pelos ecos de seus vizinhos. O país não está assistindo à reconfiguração do tabuleiro; está prestes a se tornar peça decisiva que definirá a cor e a forma do jogo para os próximos anos.