Quando a política chega na moda

Por Marco Antônio Victoy Stivanelli

“No meu país acham que moda é futilidade, tenho que dizer que não. Moda é comunicação.” — Zuzu Angel, anos 70

Se tem uma coisa que político sabe bem, é que sua imagem fala tanto quanto suas palavras. E não é só no sentido figurado. As roupas, os gestos e a maneira como se apresentam, tudo isso é parte de uma estratégia de comunicação. Das ruas às passarelas, a moda se forma através de um conjunto de códigos, e na política, ela é uma poderosa ferramenta para passar mensagens. Mas, como qualquer ferramenta, precisa ser usada com intenção e autenticidade. Se não, vira fantoche de tendência passageira.

A moda sempre teve seu papel na política. Basta olhar para nossos líderes históricos. Juscelino Kubitschek era sempre visto impecável, reforçando a imagem de um Brasil moderno. Lula, por sua vez, manteve sua barba, mas trocou o macacão operário por um paletó Ricardo Almeida, na tentativa de equilibrar a identidade sindicalista com o protocolo presidencial.

Aí, chegamos ao Brasil de hoje. Cada político usa sua vestimenta como parte de sua estratégia de comunicação.

Jair Bolsonaro virou um caso à parte nesse quesito. Fugiu do tradicional terno e gravata sempre que pôde, preferindo camisas de times brasileiros (todos que você possa imaginar) e roupas em tons verde-oliva, remetendo ao universo militar. Isso ajudou a reforçar a imagem de líder “fora do sistema”, próximo ao povo e alinhado com valores nacionalistas e conservadores. Mesmo quando vestia terno, o ajuste nem sempre impecável e a postura mais desleixada compunham essa mesma estratégia.

No outro extremo, Erika Hilton incorpora a moda como uma afirmação política. Primeira deputada federal trans eleita, Hilton entende que sua presença já é uma revolução dentro do Congresso. Com um estilo que mistura elegância clássica e toques contemporâneos, ela mesma afirma que “a moda é um ato político”. Seja nos corredores da Câmara ou na passarela da SPFW 23, a política e a moda caminham fortemente alinhadas em Erika. 

Já o presidente Lula também se utiliza da moda de forma estratégica. Em sua posse de 2023, por exemplo, trocou o tradicional terno preto por um azul. A cor, que simboliza calma e esperança, contrastava com o clima tenso do país após uma eleição tão polarizada. Seu traje também reforçava a transição de um governo marcado por tensões para uma gestão que se propunha a ser mais diplomática.

Michelle Bolsonaro também chamou atenção com seu estilo. Se Sarah Kubitschek e Maria Thereza Goulart foram primeiras-damas que trouxeram glamour à posição, Michelle adotou uma moda mais recatada, com vestidos discretos, tons neutros e cortes clássicos. Essa escolha reforçava sua imagem de mulher cristã conservadora, em sintonia com a base evangélica que ajudou a eleger seu marido.

Se bem usada, a moda pode fortalecer a imagem de um político. Mas quando mal aplicada, vira munição para críticas e memes. Em junho de 2024, prefeitos do Ceará tentaram embarcar em uma tendência de vídeos de “troca de roupa” para engajar nas redes sociais. Em vez de criar conexão com o público, geraram estranhamento. Outro caso clássico é quando políticos tentam adotar bordões e expressões populares de forma forçada. Além da internet não perdoar esse tipo de tentativa forçada de aproximação, a trend pode facilmente virar uma gestão de crise.

Moda e redes sociais: a interseção definitiva

Hoje, a política acontece tanto no palanque quanto no Instagram e no TikTok. E o estilo pessoal virou parte fundamental dessa comunicação. A moda virou conteúdo digital. Erika Hilton em desfiles, Bolsonaro vestindo a camisa do Brasil nas lives, Lula escolhendo trajes de tecidos mais leves em eventos populares: tudo isso é pensado para reforçar a identidade política na era digital.

Com a cultura dos memes e a velocidade do viral na internet, qualquer deslize ou tentativa de forçar uma tendência é percebida rápido. Bem rápido. A frase de Zuzu Angel continua mais atual do que nunca. Moda é comunicação. Cada escolha de vestimenta carrega um simbolismo, reforça mensagens e constrói uma narrativa visual. Mas essa comunicação precisa ser verdadeira.

O sucesso de um estilo político — seja no terno impecável, na camisa da seleção ou no vestido de grife francesa — depende da autenticidade. No final das contas, o que mais conecta um político ao eleitorado é ele ser, de fato, quem diz ser.

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